Como se formou a Serra dos Órgãos?


Visual do mirante Portais de Hércules
Visual do mirante Portais de Hércules

Como se formou a Serra dos Órgãos?

COMO SE FORMOU A

SERRA DOS ÓRGÃOS?

Uma viagem de 600 milhões de anos até o topo da Pedra do Sino

Quando a gente está lá em cima, ofegante, olhando para o Dedo de Deus ou para os paredões da Pedra do Sino, é fácil pensar naquilo tudo como se sempre tivesse estado ali, imutável, esperando por nós. Mas a verdade é bem mais impressionante: cada uma dessas rochas guarda, literalmente, centenas de milhões de anos de história do planeta. Neste texto, vamos contar essa história do jeito mais simples possível — sem precisar de diploma em geologia para entender — mas usando os termos certos, os mesmos que aparecem em estudos científicos sobre a nossa serra, para que você saiba que isso não é lenda de trilha: é ciência.

De onde vem o nome "Serra dos Órgãos"

Antes de entrar na geologia propriamente dita, vale contar uma curiosidade histórica que também faz parte dessa identidade. O nome "Serra dos Órgãos" não tem nada a ver com órgãos do corpo humano, como muita gente imagina à primeira vista. Ele vem de um instrumento musical: o órgão de tubos, presente nas grandes igrejas europeias desde a época colonial.

Quando os primeiros navegadores e colonizadores portugueses avistaram essas montanhas a partir da Baía de Guanabara, ainda no século XVI, a sucessão de picos verticais e alongados no horizonte lembrou justamente essa fileira de tubos organizados lado a lado. Batizaram a serra assim, e o nome atravessou séculos até hoje.

Um continente que não existe mais

A história começa muito antes de existir Brasil, América do Sul ou até mesmo Oceano Atlântico. Estamos falando de um período chamado Neoproterozoico, há mais de 600 milhões de anos, quando grandes pedaços da crosta terrestre — os blocos continentais — foram empurrados uns contra os outros por movimentos lentíssimos, mas extremamente poderosos, vindos do interior da Terra.

Esse encontro de continentes deu origem a um supercontinente gigantesco chamado Gondwana, que reunia o que hoje conhecemos como América do Sul, África, Índia, Austrália, Antártica e outros pedaços de terra que hoje estão espalhados pelo mundo. A colisão entre esses blocos não aconteceu de forma suave: ela gerou um calor e uma pressão imensos nas profundezas da crosta, o suficiente para transformar rochas inteiras e derreter parte delas.

O nascimento da rocha, no interior da Terra

É exatamente nesse cenário de calor e pressão extremos que nasceram as rochas que hoje formam a Serra dos Órgãos. Uma parte desse material, ainda derretido (o que os geólogos chamam de magma), subiu lentamente por fraturas na crosta terrestre e, em vez de chegar à superfície como um vulcão, ficou preso em profundidade, esfriando devagar ao longo de milhares de anos. Esse resfriamento lento é o que permite a formação de cristais grandes e visíveis a olho nu — e o resultado disso é o granito, a rocha que forma boa parte dos paredões e picos que escalamos hoje.

Outra parte das rochas da região não chegou a derreter, mas foi submetida a temperaturas e pressões tão altas que se transformou por dentro, sem perder o estado sólido — um processo chamado metamorfismo. O resultado desse processo é o gnaisse, uma rocha que costuma apresentar faixas ou camadas bem características, e que também está presente em vários trechos da nossa serra. Ou seja: quando você toca numa pedra na trilha, pode estar tocando em um pedaço de rocha que nasceu a vários quilômetros de profundidade, sob condições que nenhum ser humano seria capaz de suportar.

Um continente que se despedaça

Passado um tempo geológico enorme, o Gondwana começou a se fragmentar. Isso aconteceu de forma gradual, entre aproximadamente 180 e 100 milhões de anos atrás. Fissuras profundas se abriram na crosta, os blocos continentais foram se afastando pouco a pouco, e o espaço vazio entre eles foi preenchido por magma que, ao subir e esfriar, formou uma crosta nova — desta vez, uma crosta oceânica.

Esse processo é o que deu origem ao Oceano Atlântico Sul e separou, aos poucos, a América do Sul da África. E o mais curioso é que esse processo nunca parou: até hoje, esses dois continentes continuam se afastando, a uma velocidade de cerca de 2 a 4 centímetros por ano — mais ou menos a velocidade com que crescem as nossas unhas. Parece pouco, mas, em escala de milhões de anos, é isso que separou continentes inteiros.

O tempo que revela: a exumação das rochas

Aqui chegamos a um dos conceitos mais importantes — e menos conhecidos fora dos círculos da geologia — para entender a paisagem que vemos hoje: a exumação. O termo pode soar estranho, mas o processo é intuitivo: assim como um objeto enterrado pode ser trazido de volta à superfície, as rochas que se formaram em profundidade — nossos granitos e gnaisses — também foram gradualmente expostas ao longo do tempo geológico.

Isso aconteceu por causa da combinação de dois fenômenos que trabalharam juntos, entre aproximadamente 100 e 60 milhões de anos atrás. O primeiro é o soerguimento tectônico: movimentos da crosta terrestre relacionados à própria abertura do Atlântico elevaram partes da margem continental brasileira, empurrando para cima blocos inteiros de rocha. O segundo é a erosão: a chuva, os rios e as variações de temperatura foram, ao longo de milhões de anos, desgastando e removendo as camadas de rocha mais jovens que cobriam o antigo embasamento — até que os granitos e gnaisses formados em profundidade ficassem, finalmente, expostos na superfície.

Curiosidade: esse mesmo processo de exumação, ligado à ruptura do Gondwana, é estudado por pesquisadores em diferentes pontos da costa brasileira — inclusive em trabalhos que usam técnicas de datação de minerais (como traços de fissão em apatita e zircão) para calcular há quanto tempo cada trecho da serra ficou exposto ao tempo.

A escultura final: 50 milhões de anos de trabalho

Com as rochas já expostas, entrou em cena o escultor mais paciente que existe: o próprio clima. Chuva, variação de temperatura, ventos e a força da água escorrendo pelas fraturas da rocha (o que os geólogos chamam de intemperismo e erosão) passaram os últimos 50 milhões de anos desgastando essas formações, ora mais devagar, ora mais rápido, dependendo da dureza e das fraturas de cada tipo de rocha.

Foi esse trabalho lento e contínuo que esculpiu os vales profundos, os paredões verticais, as agulhas finas e os grandes picos que hoje formam a paisagem da Serra dos Órgãos. E o mais importante: esse processo não parou. As mesmas forças que moldaram essas montanhas continuam atuando, milímetro a milímetro, todos os dias — inclusive enquanto caminhamos por elas.

Uma serra que já foi muito mais alta

Um dado que costuma surpreender bastante quem visita a região pela primeira vez: em poucos quilômetros, saindo do nível do mar na Baía de Guanabara até o topo da escarpa, a Serra dos Órgãos ganha mais de 2.000 metros de altitude. É um dos desníveis mais dramáticos e concentrados de toda a costa brasileira, e é justamente essa proximidade entre o mar e a montanha que torna a vista do alto da Pedra do Sino ou do Dedo de Deus tão impressionante em dias claros.

E o mais curioso é que esse relevo já foi ainda mais extremo no passado. Os granitos que hoje formam os nossos picos se consolidaram a dezenas de quilômetros de profundidade — alguns estudos apontam que essas rochas precisaram ser soerguidas por algo em torno de 30 quilômetros até chegarem à superfície que pisamos hoje. E geólogos que estudam a evolução da Serra do Mar e da Serra da Mantiqueira como um todo estimam que, em determinados pontos e períodos, essas cadeias de montanhas podem ter alcançado cerca de 4.000 metros de altitude — quase o dobro do que temos atualmente nos pontos mais altos da região.

Vale um esclarecimento: é comum circular por aí a ideia de que essas montanhas já teriam chegado a 8 mil metros de altura, na época da colisão dos continentes. É uma afirmação e tanto — mas não encontramos essa estimativa em nenhum estudo geológico sério sobre a nossa região. O que a ciência de fato aponta, com base em pesquisas sobre soerguimento e erosão da Serra do Mar, é para altitudes bem menores do que essa, ainda que muito superiores às atuais. Preferimos contar a versão que os dados sustentam a exagerar a história.

A gangorra geológica: basalto, hot spot e a "linha de charneira"

Aqui entra outro capítulo curioso dessa história, e que também tem respaldo científico: o de que o soerguimento da nossa serra funcionou, em certa medida, como uma gangorra em relação ao interior do continente — com o basalto tendo um papel importante nesse equilíbrio.

O mecanismo mais estudado funciona assim: entre aproximadamente 89 e 65 milhões de anos atrás, a Placa Sul-Americana passou sobre uma anomalia térmica no manto terrestre — o chamado hot spot de Trindade — o que provocou o soerguimento gradual de um imenso planalto, batizado pelos geólogos de "Serra do Mar Cretácea", com mais de 300 mil quilômetros quadrados. Esse soerguimento veio acompanhado de intenso vulcanismo, tanto de rochas alcalinas (como o maciço do Itatiaia, na divisa entre Rio e Minas Gerais) quanto de magmatismo básico — ou seja, basáltico — em áreas de crosta continental mais afinada, próximas à futura linha de costa.

O detalhe da "gangorra" está exatamente aqui: enquanto esse planalto interior se elevava, sua borda ficava vizinha a áreas que, ao mesmo tempo, afundavam — as futuras bacias sedimentares de Santos e Campos, no litoral. Essa fronteira entre o lado que sobe e o lado que desce é chamada pelos geólogos, tecnicamente, de linha de charneira — charneira sendo, justamente, a peça que funciona como dobradiça, o ponto de apoio de uma gangorra. Quando esse equilíbrio ficou instável demais, o antigo planalto entrou em colapso gravitacional em direção às áreas mais baixas, um processo que ajudou a formar o sistema de falhas e vales (grábens) que hoje corta o litoral fluminense — incluindo a própria depressão onde está a Baía de Guanabara, bem aos pés da nossa serra.

Existe ainda uma segunda versão dessa mesma ideia de "gangorra", mais associada à porção sul da Serra do Mar (no Paraná): ali, o peso de um enorme volume de lava basáltica que cobriu o interior do continente — a chamada Formação Serra Geral, com cerca de 130 milhões de anos, ligada à própria abertura do Atlântico Sul — teria funcionado como uma carga que afundou o centro da Bacia do Paraná, provocando, por compensação isostática, o soerguimento das bordas dessa bacia, exatamente onde hoje está a escarpa da Serra do Mar naquele estado. É um raciocínio parecido, mas tecnicamente distinto do que ocorreu aqui na altura do Rio de Janeiro.

Ou seja: a ideia da "gangorra" não é fantasia — é, na verdade, uma forma bem intuitiva de descrever um mecanismo real da geologia, chamado de compensação isostática flexural. O que vale destacar é que, na nossa região específica (Serra dos Órgãos e Serra do Mar fluminense), o protagonista da história é mais o soerguimento ligado ao hot spot de Trindade do que o peso do basalto da Bacia do Paraná propriamente dito — mas o princípio de fundo, de um lado subindo enquanto o outro desce, é exatamente o mesmo.

Uma família de montanhas: Serra dos Órgãos, Três Picos e Serra do Mar

Antes de falarmos dos gigantes propriamente ditos, vale um esclarecimento importante, porque é comum haver confusão aqui: a Serra dos Órgãos não é só o Parque Nacional que leva esse nome (o PARNASO). Ela é, na verdade, o nome de toda uma cordilheira — um trecho inteiro de montanhas — que faz parte de uma cadeia ainda maior, a Serra do Mar, a grande espinha dorsal rochosa que acompanha boa parte do litoral brasileiro.

Dentro dessa cordilheira da Serra dos Órgãos existem duas grandes unidades de conservação: o Parque Nacional da Serra dos Órgãos (onde ficam a Pedra do Sino, o Dedo de Deus e a Agulha do Diabo) e o Parque Estadual dos Três Picos (onde ficam o Pico Maior, o Pico Médio, o Pico Menor e o Vale dos Frades). São administrações diferentes, mas geologicamente fazem parte da mesma grande formação rochosa, nascida do mesmo processo que contamos até aqui — o mesmo granito, o mesmo gnaisse, a mesma história de colisão de continentes, soerguimento e erosão. Por isso, quando falamos que o Pico Maior dos Três Picos é o ponto mais alto de toda a Serra do Mar, estamos falando de um gigante que pertence tanto ao conjunto da Serra dos Órgãos quanto à grande cadeia da Serra do Mar como um todo.

Dedo de Deus: o berço do montanhismo brasileiro

Com 1.692 metros de altitude, o Dedo de Deus é o símbolo mais reconhecido da Serra dos Órgãos — e também guarda a história de nascimento do montanhismo no Brasil. Em abril de 1912, cinco jovens de Teresópolis (José Teixeira Guimarães, Raul Carneiro e os irmãos Acácio, Alexandre e Américo de Oliveira) partiram para o que muitos julgavam impossível: alcançar o topo daquele obelisco de pedra que, até então, havia resistido a tentativas de escaladores estrangeiros mais experientes.

Sem os equipamentos de segurança que existem hoje, usando basicamente cordas simples e um tronco de árvore para vencer um paredão vertical, o grupo — com a ajuda de um garoto chamado João Rodrigues de Lima, que subia diariamente levando comida para os montanhistas — atingiu o cume e hasteou a bandeira do Brasil. Esse feito é considerado, até hoje, o marco fundador do montanhismo esportivo brasileiro. Do ponto de vista geológico, o Dedo de Deus tem outra particularidade interessante: a crista rochosa onde ele se encontra é sustentada por um espesso dique de granito mais recente e mais resistente à erosão do que o gnaisse ao redor, formado ainda na época do Gondwana. É essa diferença de dureza entre as rochas, aliás, que ajuda a explicar por que o Dedo de Deus continua de pé, verticalizado, enquanto o material ao seu redor foi sendo desgastado ao longo de milhões de anos.

Pico Maior dos Três Picos: o teto da Serra do Mar

Já o Pico Maior, no Parque Estadual dos Três Picos, é conhecido entre os escaladores pelo apelido de "Salinas" — nome do vale próximo de onde parte a maioria das escaladas. Diferente do Dedo de Deus, que pode ser escalado em algumas horas, o Pico Maior é um desafio de outra escala: sua primeira conquista aconteceu apenas em 1946, e sua via mais tradicional, a Face Leste, só foi aberta em 1974, com cerca de 700 metros de parede — considerada, por muito tempo, a maior via de escalada (bigwall) de todo o Brasil.

Geologicamente, o Pico Maior é um enorme monólito de granito e gnaisse, formado pelo mesmo processo de intrusão magmática e posterior exumação que já contamos aqui. A diferença é a escala: por ser mais robusto e menos fraturado que outras formações da região, ele resistiu à erosão de forma ainda mais notável, o que também explica por que continua sendo, até hoje, o ponto mais alto de toda a Serra do Mar.

Os gigantes que resultaram dessa história

Em resumo, os grandes ícones que conhecemos e que guiamos com tanto orgulho:

• Pico Maior dos Três Picos — 2.366 metros, o ponto mais alto de toda a Serra do Mar;
• Pedra do Sino — 2.275 metros, o ponto culminante do Parque Nacional da Serra dos Órgãos;
• Dedo de Deus — 1.692 metros, o símbolo mais famoso da nossa serra.

Agulha do Diabo: a agulha de granito entre dois gigantes

Com cerca de 2.050 metros de altitude, a Agulha do Diabo é uma das formações mais respeitadas do PARNASO. Ela fica encravada em meio as montanhas da Serra dos Órgãos e seu perfil fino e vertical — resultado das mesmas fraturas na rocha que discutimos lá atrás, no processo de exumação — faz dela uma das escaladas mais desejadas por montanhistas do mundo todo. Sua primeira conquista aconteceu em 1941, e até hoje subir a Agulha do Diabo é considerado um marco na trajetória de quem escala na nossa região.

Verruga do Frade: o rosto de pedra da serra

Um dos conjuntos mais curiosos da Serra dos Órgãos é o que os montanhistas apelidaram carinhosamente de "O Frade": um alinhamento de quatro formações rochosas — o Capucho, o Nariz, a Verruga e o Queixo — que, vistas de determinado ângulo na silhueta da serra, lembram o perfil do rosto de um homem encapuzado, como um monge antigo.

A Verruga do Frade é, na prática, um imenso bloco de granito de cerca de 14 metros de altura e aproximadamente 100 toneladas, equilibrado no topo do Nariz do Frade, a quase 1.960 metros de altitude. Esse tipo de bloco isolado sobre uma formação maior também é fruto do processo de erosão diferencial: partes mais resistentes da rocha resistem ao desgaste enquanto o material ao redor vai sendo removido lentamente, até sobrar apenas esse "equilíbrio" que parece desafiar a lógica. A primeira escalada registrada da Verruga aconteceu em 1933, um marco histórico do montanhismo praticado na nossa região.

Vale dos Frades: o outro lado da moeda dos Três Picos

Já o Vale dos Frades é uma área diferente — não deve ser confundido com a formação "O Frade" do parágrafo anterior. Ele fica dentro do Parque Estadual dos Três Picos, na divisa entre Nova Friburgo e Teresópolis, e é famoso por abrigar a Cachoeira dos Frades, além de montanhas como o Morro dos Cabritos, a Pedra do Índio e os Dois Bicos.

O Vale dos Frades é o destino final da clássica travessia que sai do Vale dos Deuses — aos pés do Pico Maior, do Pico Médio e do Pico Menor — e atravessa toda a região dos Três Picos. É um dos melhores exemplos de como o mesmo processo geológico que criou os picos mais altos da Serra do Mar também esculpiu, ao seu redor, vales profundos, quedas d'água e paisagens completamente diferentes — prova de que a erosão não apenas destrói, ela também organiza a paisagem, abrindo caminhos por onde hoje caminhamos.

Caixa de Fósforos: quando a erosão vira engenharia natural

Bem no caminho entre o Vale dos Deuses e o Vale dos Frades fica uma das formações mais curiosas de toda a região dos Três Picos: a Caixa de Fósforos, também apelidada antigamente de "Pedra dos Milagres", por parecer desafiar as leis da física. É um bloco de rocha de cerca de 10 a 20 metros de altura, equilibrado sobre uma base bem mais estreita do que o próprio bloco, a quase 1.800 metros de altitude.

A explicação geológica para esse tipo de formação é a mesma que já vimos na Verruga do Frade: um estudo acadêmico sobre a geomorfologia do Parque Estadual dos Três Picos explica que o padrão de fraturamento dos granitos da região funciona como um plano de fraqueza, por onde a água e o intemperismo penetram com mais facilidade. Com o tempo, esse processo isola blocos inteiros de rocha, que ficam "suspensos" sobre uma base bem mais fina — dando origem a formações exóticas como essa. A Caixa de Fósforos foi escalada pela primeira vez em fevereiro de 1944, por um grupo liderado por Sílvio Joaquim Mendes, um dos pioneiros do montanhismo na região.

A geologia por trás da Travessia Petrópolis-Teresópolis

Não dá para falar da Serra dos Órgãos sem falar do seu roteiro mais emblemático: a Travessia Petrópolis-Teresópolis, considerada por muitos uma das caminhadas mais bonitas do Brasil. E o interessante é que essa travessia também é, na prática, uma aula de geologia a céu aberto — tanto que já foi tema de pesquisas acadêmicas específicas, publicadas por pesquisadores da UFRJ sobre o patrimônio geomorfológico da trilha.

Ao longo do percurso, o caminhante atravessa diferentes unidades geológicas: ortognaisses e migmatitos do chamado Complexo Rio Negro, rochas graníticas intrusivas do Batólito da Serra dos Órgãos e maciços graníticos mais recentes, formados já depois do período de maior deformação da região, como o Granito Andorinha. Essa sucessão de rochas diferentes, com durezas e idades distintas, ajuda a explicar por que a paisagem muda tanto ao longo dos três dias de caminhada — de trechos mais arredondados a paredões verticais colados uns aos outros.

Outro ponto marcante do estudo é justamente a escarpa de falha voltada para a Baía de Guanabara: o trecho onde a trilha passa pela cota de 2.000 metros, no Chapadão do Açu, e de onde é possível avistar, em dias claros, a cidade do Rio de Janeiro e a própria Baía lá embaixo, quase ao nível do mar. É essa combinação entre falhas geológicas antigas e erosão contínua ao longo de milhões de anos que criou esse desnível tão acentuado — e essa vista que, não à toa, é um dos momentos mais marcantes de toda a travessia.

Por que isso importa quando você está na trilha

Contar essa história não é só curiosidade de geólogo. Entender que cada pico levou centenas de milhões de anos para se formar muda a forma como a gente enxerga a montanha durante uma travessia. Aquele paredão de granito que exige atenção redobrada na escalada, aquela pedra lisa e escorregadia depois da chuva, aquela agulha impossível que parece desafiar a gravidade, aquele blocão equilibrado no topo de um pico — tudo isso tem uma explicação geológica, e conhecer essa explicação só torna a experiência mais rica.

Na Ser Aventureiro, acreditamos que trilha boa é trilha bem contada. Por isso, sempre que possível, gostamos de trazer um pouco dessa ciência para dentro da experiência — porque entender a montanha é também uma forma de respeitá-la.

A mesma terra. Milhões de histórias.

Ser Aventureiro Trekking — Teresópolis, RJ

Fontes consultadas

As informações geológicas e as altitudes citadas neste texto foram checadas com base nas seguintes referências:

• Wikipédia — Parque Nacional da Serra dos Órgãos (altitude da Pedra do Sino, Dedo de Deus e Escalavrado).
• Wikipédia — Serra do Mar e Wikipédia — Agulha do Diabo (contexto geral da cadeia e da formação).
• Terê Total — "Pedra do Sino" (remedição oficial de 2.275 m, substituindo o valor antigo de 2.263 m).
• Portal Guapimirim e TerêTudo — reportagens sobre a Pedra do Sino e o Parque Nacional da Serra dos Órgãos (PARNASO).
• IBGE — Anuário Estatístico do Brasil 2023, tabela de pontos culminantes (altitudes homologadas).
• Terra.com.br — "Pico Maior é montanha mais alta da Serra do Mar, confirma medição inédita" (medição DGPS de 2.366 m em parceria com UFRJ e IBGE).
• WikiParques — Parque Estadual dos Três Picos (Vale dos Deuses, Capacete de Salinas, Caixa de Fósforos).
• Vidas em Paredes e Trilhando Montanhas — Parque Estadual dos Três Picos (Vale dos Frades, Cachoeira dos Frades, Morro dos Cabritos, Pedra do Índio, Dois Bicos).
• O Diário de Teresópolis — reportagens sobre a formação "O Frade" (Capucho, Nariz, Verruga e Queixo) e a Escalada Agulha do Diabo (Nattrip, Adrena Rio).
• Centro Excursionista Teresopolitano (CET) — histórico da primeira escalada da Verruga do Frade, em 1933.
• Redalyc — "Domínios Geomorfológicos no Parque Estadual dos Três Picos e sua Relação com Aspectos Geológicos" (estrutura geológica regional, Faixa Ribeira).
• AltaMontanha — série "Nossas Serras", sobre a Serra do Mar e sua relação com a Serra dos Órgãos e o Parque dos Três Picos.
• Torsvik & Cocks (2017) — reconstrução paleogeográfica do supercontinente Gondwana, referência acadêmica clássica sobre o tema.
• Sou Petrópolis e Terê Total — origem do nome "Serra dos Órgãos" (comparação feita pelos colonizadores portugueses com os tubos de órgão das igrejas europeias).
• Netshoes, AltaMontanha, Portal Guapimirim e Centro Excursionista Teresopolitano (CET) — história da primeira ascensão do Dedo de Deus, em abril de 1912.
• Wikipédia (em inglês) — Parque Nacional da Serra dos Órgãos (detalhe geológico sobre o dique de granito cambriano que sustenta a crista do Dedo de Deus).
• AltaMontanha — "Escalando a Face Leste do Pico Maior de Friburgo" e Trilhas & Rumos — histórico de primeira ascensão do Pico Maior (1946) e da Via Leste (1974).
• AltaMontanha — "Caixa de Fósforos, a 'pedra dos milagres'" e Roteiros e Trilhas — histórico e primeira escalada da Caixa de Fósforos, em 1944.
• Redalyc — artigo sobre domínios geomorfológicos do Parque Estadual dos Três Picos (explicação sobre isolamento de blocos rochosos por fraturamento e erosão diferencial).
• Physis Terrae (Revista Ibero-Afro-Americana de Geografia Física e Ambiente) — Pessoa, Brito, Pacheco, Peixoto & Mansur, "Patrimônio geomorfológico e interpretação ambiental em trilhas de montanha: Travessia Petrópolis-Teresópolis" (UFRJ, 2019).
• AltaMontanha — "Origens e evolução da Serra do Mar" (soerguimento de rochas graníticas e estimativas de paleoaltitude da Serra do Mar e da Mantiqueira).
• Jacuhy — "Paranapiacaba: origem e evolução da Serra do Mar" (estimativas de altitude pretérita das serras, com base em declarações dos geólogos Claudio Riccomini e Daniel Souza, USP).
• Zalán, P.V. & Oliveira, J. — "Origem e evolução estrutural do Sistema de Riftes Cenozóicos do Sudeste do Brasil", Boletim de Geociências da Petrobras (2005) — mecanismo de soerguimento da "Serra do Mar Cretácea" ligado ao hot spot de Trindade e à linha de charneira com as bacias de Santos e Campos.
• AltaMontanha — "Origens e evolução da Serra do Mar" (compensação isostática entre o basalto da Formação Serra Geral e o soerguimento das bordas da Bacia do Paraná).

Observação: altitudes de montanhas costumam variar ligeiramente entre fontes, por causa de diferentes metodologias de medição ao longo dos anos. Sempre que houve divergência, priorizamos a medição mais recente e homologada por instituições como IBGE e UFRJ.


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